domingo, 24 de outubro de 2010

JOVENS ESCRITORES - II

Sabaudia-Itália



  [...]«Ainda não me explicaste essa história do Bom Inverno. Estamos em Junho, porra.»
   Ele encolheu os ombros e voltou a pegar no cigarro.
   «Sei lá. Há anos que ouço o meu pai usar essa expressão. Presumo que só o Metzger saiba a resposta.»
   «Bom, se um dia descobrires porquê, faz o favor de me elucidares.»
   Tirei o guardanapo do colo, procurei o cabo da bengala debaixo da mesa e bocejei. O restaurante estava completamente vazio, e um último e solitário empregado limpava o balcão do bar com um pano molhado. «Estou a adorar a conversa, mas amanhã temos um longo dia. Vamos andando?»
   Vincenzo pareceu não me ouvir.
   «Ouve lá, estou a ter uma ideia bestial.»
   Pousei o guardanapo usado sobre a mesa.
   «As famosas últimas palavras antes de um desastre iminente.»
   «Se o telefonema chegar, podias vir connosco a Sabaudia.»
   Fitei-o, incrédulo.
   «Não quero parecer mal-educado, mas acabámos de nos conhecer.»
   Os olhos de Vincenzo brilhavam de entusiasmo.
   «A sério, imagina bem as possibilidades. Somos os dois escritores, somos os dois jovens. Passar uns dias na casa de Metzger pode ser uma experiência do caraças. Que tem a vantagem de poder acontecer precisamente agora.»
   «Escuta», disse, interrompendo-o bruscamente. «É a primeira vez que estou a ouvir falar dessa história toda. Do Metzger, de Sabaudia, do Bom Inverno, seja lá o que for que isso queira dizer. [...]


João Tordo in O Bom Inverno



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

JOVENS ESCRITORES




-É chegada a minha hora,


balbuciou a velha, que se encontrava havia mais de três meses no seu leito, diga-se mais morta do que viva, com forças apenas para aquelas palavras, como se as tivesse poupado para, desse modo, dar por anunciado o fim da mulher mais beata que o mundo alguma vez conhecera, estranha pronúncia foi aquela, a penúltima, uma cabala de uma morte evidente, porque a última da morte ninguém sabe, mas todos sabiam que era sem dúvida o adeus esperado da mais abnegada pessoa que a igreja e a sociedade alguma vez baptizaram naquelas ilhas abandonadas, tratava-se da mulher mais desinteressada pela vida que a vida alguma vez recebera, aquela que entre todas este mundo menos amara, aquela que mais desprezara o corpo e os seus prazeres [...] 

[...] também era uma estudiosa incomparável da morte, de todas as formas da morte, porque queria saber bem como morrer para poder alcançar a vida eterna, o que lhe dera conhecimentos inéditos e lhe permitira decifrar todas as etapas por que passam todos os mortos, e dizia que as fases da moribunda são seis, a Dúvida, o Desespero, o Apego, a Impaciência, que é o momento da cólera, o Orgulho e o Abandono [...]

[...] tudo sacrificara para um dia morrer bem, de tal modo que, quando ela emitiu a custo a frase É chegada a minha hora, as netas que com ela estavam interpretaram aquilo como sendo finalmente a renúncia da vida e a aceitação da morte, e, na verdade, era o que ela queria dizer, [...]

- Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,

gritaram as netas agarradas à cadeira onde vinham passando o tempo, revezando-se havia três meses, pois a velha nunca quisera estar só e arranjou aquele assento de cabeceira que, [...]

- Não chamam nada, na minha morte mando eu,

Claro está que a velha não podia dizer «Na minha vida mando eu», porém, com aquele trocadilho, estava a fazer uma clara alusão à vida que ela não vivera e por que sempre tivera curiosidades, sempre desejara experimentar, mesmo escondida atrás das rezas e dos terços, [...]

- Não quero médico, chamem-me um fotógrafo,

E as netas, ainda confusas com aquele estado impenitente, exclamaram,

- Estás doida, Vó?,

E a avó retrucou na mesma moeda,

- Estou a morrer, não estou?, então, cumpra-se a minha vontade, quero um fotógrafo, pois o médico adia a morte e o fotógrafo perpetua a vida, [...]


Mário Lúcio Sousa in O Novíssimo Testamento

domingo, 10 de outubro de 2010

ATÉ ONDE, ATÉ QUANDO?






Entraste cambaleante pelo palco e o público tremeu receando que a cadeira te não soubesse acolher…
Escoraste-te nos amigos e nas palmas e mergulhaste no abraço da guitarra que te guiou…
Tropeçaste nas palavras mas ergueste-te seguro partilhando as tuas dores, os teus risos, os teus amores…
E os teus poemas nos levaram ao mais fundo de nós…
E as melodias que nos doaste transportaram-nos ao centro do belo, no mais alto ponto da criação…

Cambaleando contigo nos teus passos inseguros, titubeantes 

- encosta-te a mim, disse-te eu

vagueei por entre o que é torto… e o que é direito… certo e errado… o sim e o não…
                                 
                                  … procurei o equilíBRIO

… do dia e da noite… do faz e do faz-de-conta, do criador e do que mata…
… do riso e da lágrima…                  … da admiração e da pena…


E a ti rendida me perguntei:
Até onde, até quando, pode o anjo que te protege guiar-te por cordas e teclas, em acordes e ritmos certeiros, voando pela noite… do lado certo … da Arte?...



Clementina Antunes/9 Out-2010
(depois de ouvir Jorge Palma em concerto acústico)


quarta-feira, 23 de junho de 2010

O ESCRITOR MORREU


O tempo é de Primavera, cobre-se o campo de brancos malmequeres, rasteirinhos, se para atalhar caminho cortam os viajantes pelo meio deles, rufam as duras cabeças das flores nos pés descalços de Baltazar e Blimunda, têm um e outro sapatos ou botas, mas vão guardados no alforge para quando o caminho for de pedras, e do chão sobe um cheiro acre, é a seiva do malmequer, perfume do mundo no primeiro dia, antes de Deus ter inventado a rosa. Está um lindo tempo para ir ver uma máquina de voar, passam no céu grandes nuvens brancas, que bom seria levantar-se a passarola uma vez mais que fosse, subir pelos ares fora, rodear aqueles castelos suspensos, ousar o que aves não ousam, entrar por eles gloriosamente, tremer de medo e de frio, e depois sair para o azul e para o sol, ver a terra formosa e dizer, Terra, que bela é Blimunda.


José Saramago in Memorial do Convento
(1922-2010)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

ARMÉNIO VASCONCELOS

Arménio Vasconcelos mostrando o 1º tractor importado para Portugal (Fordson)



Já vai distante o dia em que o conheci. Passaram trinta anos mas o tempo não apaga a lembrança daquela tarde em que entrei no escritório do advogado, um vasto salão de janelas rasgadas para a Fonte Luminosa.
Timidamente expus o meu caso. Sem ousar encará-lo desviava o olhar para os desenhos da carpete que cobria o chão de madeira ou para as paredes, sobretudo para as paredes. Tentava esconder o nervosismo e concentrar-me nas suas palavras mas o chamamento daquelas paredes inundadas de luz era forte, muito forte, cada vez mais forte.
Terminada a consulta, na hora da despedida, não resisti ao impulso e... aproximei-me, cheguei mais perto... e logo mais longe... para que a distância me deixasse ver melhor toda a beleza contida nas molduras que guardavam verdadeiras pérolas da Arte. Dezenas de obras de pintores de renome que eu só conhecia dos livros...
E fiquei assim largos momentos, parada no tempo e na lembrança do motivo que ali me trouxera...
Adiado, para amadurecimento, o projecto que me levara até ele, entreguei-me freneticamente ao processo criativo e concretizei um sonho antigo: em 1982, com o seu incentivo, fiz a minha primeira exposição de pintura.
Já não nos víamos há uns anos mas esta semana reencontrei-o. Em Figueiró dos Vinhos, terra de sua mulher, a Lucília minha amiga, e de Malhoa que aqui viveu (o grande pintor José Malhoa que muito admiro). 
Sem surpresas, porque conheço a sua têmpera, pude verificar que o homem que em 1982 iniciou a imensa obra que é hoje o MUSEU MARIA DA FONTINHA (onde me orgulho de estar representada) se prepara, com sua mulher, para inaugurar mais um espaço museológico onde guarda algumas preciosidades.
Muito obrigada Arménio, pelo que fazes em prol da preservação e restauro do património cultural e afectivo.

Nossa Senhora da Consolação
retábulo da igreja de Chão de Couce-a última obra de Malhoa

Clementina Antunes/10
fotos-clemantunes

terça-feira, 1 de junho de 2010

AO TEMPO...



foto-Maria Laisa


Tempo

Nas montras de genève, os relógios marcam
todos a mesma hora, tão certos como o horário
dos comboios que chegam e partem
de cointrin.


Fiquei ali num quarto com vista para
o lago; e embora tivesse chovido toda
a noite, nada se ouvia por trás dos vidros
a não ser o bater suave dos fantasmas
sem abrigo.


De manhã, quando saí, todos
os relógios estavam parados nas montras das
lojas. Nenhum comboio chegava ou partia de 
cointrin. Aproveitei o dia sem relojoeiros
para espreitar a eternidade no centro
dos mostradores.

Nuno Júdice



sábado, 29 de maio de 2010

CANTOS POÉTICOS

foto-Tiago Grácio


não sei quando desaguaram nossos olhos
neste mesmo abismo de luz. como duas aves
únicas, impulso de asas à mesma sede.


estendeste-me depois a mão, concha
de rosas a soprar ternura a soprar desejo,
pétalas pólen orvalho espinhos. caminhos


pela orla húmida na hora das marés,
em meio das urzes, mel escoado de sol,
rentes às paredes saturadas de pêndulos.


e lentamente na lassidão da madrugada
no respirar crespúsculo na fundura da noite
ou na ausência, dizemos nosso nome amor.









maria manuel (in blog com palavras ao fundo)

ERA UMA VEZ...

foto-clemantunes


Era uma vez uma Risca Azul. De um azul que não era escuro nem claro. Aquele azul de mar limpo, calmo e transparente. Não o que banha de mansinho a areia branca e fina duma praia ornada de coqueiros mas aquele mais profundo, que se observa do alto duma rocha escarpada de uma ilha perdida no oceano.

A Risca Azul não era gorda mas também não era magra. Era assim como… uma risca de tamanho… normal. Apesar de às vezes se olhar desejando ser um pouco mais fina, na maior parte do tempo a Risca Azul sentia-se bem com as suas dimensões. Até porque, coladinhas a ela, uma de cada lado, viviam a Risca Vermelha e a Risca Rosa que eram iguaizinhas nas medidas. E olhando um pouco mais longe, para ambos os lados, a Risca Azul conseguia ver outras mais, de outras Cores, todas elas com as mesmas proporções.

Assim, a Risca Azul vivia satisfeita, colada na Meia de Riscas que repousava num canto de uma gaveta.


A vida na Gaveta era uma vida como tantas outras: uns dias calmos, que ela aproveitava para descansar e reflectir (pôr as ideias em ordem) e logo outros mais agitados que, nalguns casos, poderiam até ser um verdadeiro suplício. Tudo dependia da dona da Gaveta Branca de um roupeiro de portas espelhadas…



Clementina Antunes/Maio 2010



terça-feira, 18 de maio de 2010

ANIVERSÁRIO DO ORFEÃO DE LEIRIA


foto-clemantunes

ORAÇÃO DOS FIÉIS


Era uma vez um sonho que despontou num banco de jardim.
Um pequeno grupo de leirienses lançou a semente.

-Por todos os semeadores de nobres ideias… 
                                                                      OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR

E era o mês de Maio de 1946. A semente, carinhosamente cuidada, brotou com sinais de esperança: nasceu o Orfeão de Leiria.

-Pelos cuidadores, pelos tratadores de sonhos... 
                                                                      OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR

Dezenas de homens se uniram e entoaram canções que romperam as fronteiras do Lis e difundiram gestos de paz, gestos de harmonia.

-Por todos os trabalhadores da harmonia e da paz... 
                                                                      OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR

Foram muitos os maestros que ao longo destes anos conduziram homens e mulheres no caminho da descoberta dos sons e da aprendizagem de estar em grupo. Rui Barral foi o primeiro, Guy Stoffel ajudou a nascer o Coro Misto e hoje é Pedro Miguel quem nos dirige.

- Por todos os condutores de almas e de emoções… 
                                                                      OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR

E dia a dia, a Obra cresce, multiplica-se. Sucessivos Corpos Directivos empenham-se na construção da mudança e a Casa fervilha de Vida.

-Por todos os construtores do progresso…   OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR


Mozart e Bach são só dois dos inúmeros compositores que diariamente se interpretam na nossa Casa, unindo avós e netos na comunhão de vontades na procura do conhecimento e na elevação do carácter.

-Pela união na Família…                              OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR

O Orfeão de Leiria festeja 64 anos. Todo o êxito alcançado é fruto de árduo trabalho e empenhamento de um vastíssimo número de obreiros:
Dirigentes
Coralistas
Professores
Alunos
Pais e encarregados de educação
Funcionários
Patrocinadores
Sócios
Amigos do Orfeão
(hoje lembramos especialmente Basílio Artur Pereira, o Sr. Basílio, um amigo de longa data que estará sempre connosco)

-Por todos eles e por nós aqui presentes, para que encaremos a prática do amor à Arte como uma preciosa ferramenta para o desenvolvimento pessoal e ascensão espiritual… 
                                                                      OREMOS AO SENHOR
                                                                          OUVI-NOS SENHOR


Texto de Clementina Antunes (para a missa de 16 de Maio de 2010)

terça-feira, 11 de maio de 2010

VERDES SÃO OS CAMPOS


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.


Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.



Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;



Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


Luís de Camões
fotos-clemantunes
Maio/10

sábado, 1 de maio de 2010

reCANTOS POÉTICOS

foto-José Branco


Princípios

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice

sexta-feira, 23 de abril de 2010

PONTOS DE VISTA...




O QUE SEMPRE SOUBE DAS MULHERES, MAS TIVE À MESMA DE PERGUNTAR

Tratam-nos mal, mas querem que as tratemos bem. Apaixonam-se por serial-killers e depois queixam-se de que nem um postalinho. Escrevem que se desunham. Fingem acreditar nas nossas mentiras desde que tenhamos graça a pregá-las. Aceitam-nos e toleram-nos porque se acham superiores. São superiores. Não têm o gene da violência, embora seja melhor não as provocarmos. Perdoam facilmente, mas nunca esquecem. Bebem cicuta ao pequeno - almoço e destilam mel ao jantar. Têm uma capacidade de entrega que até dói. São óptimas mães até que os filhos façam dez anos, depois perdem o norte. Pelam-se por jogos eróticos, mas com o sexo já depende. Têm dias. Têm noites. Conseguem ser calculistas e maldosas como qualquer homem, só que com muito mais nível. Inventaram o telemóvel ao volante. São corajosas e quando se lhes mete uma coisa na cabeça levam tudo à frente. Fazem-se de parvas porque o seguro morreu de velho e estão muito escaldadas. Fazem-se de inocentes e (milagre!) por esse acto de vontade tornam-se mesmo inocentes. Nunca perdem a capacidade de se deslumbrarem. Riem quando estão tristes, choram quando estão felizes. Não compreendem nada. Compreendem tudo. Sabem que o corpo é passageiro. Sabem que na viagem há que tratar bem o passageiro e que o amor é um bom fio condutor. Não são de confiança, mas até a mais infiel das mulheres é mais leal que o mais fiel dos homens. São tramadas. Comem-nos as papas na cabeça, mas depois levam-nos a colher à boca. A única coisa em nós que é para elas um mistério é a jantarada de amigos - elas quando jogam é para ganhar. E é tudo. Ah, não. Há ainda mais uma coisa, acreditam no Amor com A grande mas, para nossa sorte, contentam-se com pouco.

RUI ZINK

terça-feira, 20 de abril de 2010

A VIDA

foto-Bruno Abreu




A VIDA

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!



João de Deus

sexta-feira, 16 de abril de 2010

RENASCER

foto - clemantunes



O sol brilhou cheio e animador e por uns dias foi Primavera. Na luz, na temperatura do ar e nos rostos dos humanos que se abriram à mudança. A vida fervilhou com um novo vigor.
Ela despiu o leve casaco, enfiou nos pés descalços os velhos chinelos amarelos e saiu para o terraço sentindo o sol acariciar os seus ombros nus. No bolso do avental tem os utensílios de que precisa mas antes de iniciar a tarefa que se propôs dá uns passos descansados inteirando-se do que é prioritário fazer.
A glicínia deixou cair quase todas as pétalas lilases das suas flores que as abelhas beijaram e exibe agora um aglomerado de brilhantes folhas verdes luminosas que fazem sombra na janela da cozinha. Embora um pouco mais atrasadas, nas buganvílias crescem já novos rebentos mas as sardinheiras, de velhas, morreram nos vasos onde agora se vê uma grande variedade de pequenas ervas.
O vermelho das flores da planta do Natal está mais baço contrastando com o brilho da verde salsa que engrossou o caule e se prepara para mostrar as suas brancas flores. Lá no canto, a velha orquídea maltratada que se recusou a florir e de raiva rebentou com o pequeno vaso (incapaz de conter as suas fortes raízes), exige a sua atenção. E nas demais floreiras as plantas reclamam pelo abandono.
Sem pressas, ela começa o trabalho e durante três dias (tantos quanto dura a Primavera do seu terraço) embrenha-se profundamente no refazer da vida. Revolve a terra libertando-a de impurezas, substitui vasos e plantas danificados, transplanta, semeia, fertiliza…
E quando, saboreando os últimos raios de sol ao fim da tarde, ela olha a obra concluída, pensa como é fantástico observar a forma como a vida se renova. Há dez anos atrás só os pombos deixavam a sua marca no chão de tijoleira com cheiro a novo mas outros habitantes vieram para ficar e renovar-se continuamente.
Com maior ou menor entusiasmo e êxito, para além das plantas ornamentais ela já plantou e colheu nabiça, pepinos, tomates, feijão verde, couves, framboesas…
Utiliza na cozinha os coentros, a hortelã e a salsa que profusamente crescem nos vasos e em cada ano que passa substitui algumas plantas introduzindo uma ou outra novidade. Desta vez foi a alfazema e o alecrim, que vieram encher de perfume selvagem o recanto dos temperos, e o pequeno pessegueiro que, nascido de um qualquer caroço jogado na terra, espera ver produzir alguns frutos.
Mas o que mais a está a entusiasmar é a grande quantidade de flores e pequenos frutos que se estão a desenvolver nas oito pequenas plantas de folhas recortadas que transplantou com imenso carinho.
E acredita que, para além dela, este ano todos os habitantes do seu terraço (os pardais, as rolas, as borboletas, os gafanhotos, as lesmas, os caracóis, as joaninhas, as lagartas, as aranhas, as formigas, as abelhas e todos quantos queiram vir) podem admirar e provar os morangos que crescem rosados nas floreiras viradas ao sol de Leiria.

Clementina Antunes/10

domingo, 11 de abril de 2010

SE...

foto-clemantunes


E se o mar

que te levou

fosse o mar

que te trouxesse...

eu navegaria

leve

na esteira

do teu abraço...

Clementina Antunes/10

domingo, 4 de abril de 2010

ALELUIA!! ALELUIA!!

foto-clemantunes



Muito mais que o Natal, Carnaval ou Santos Populares a Páscoa era a época que mais intensamente se vivia na minha aldeia. Nas semanas que antecediam o Domingo de Páscoa, obedecendo aos rigorosos preceitos religiosos, cumpríamos o jejum e abstinência. Era tempo de sacrifícios por isso éramos privados do que mais nos animava: a música. O rádio era desligado e se começávamos a entoar uma canção das muitas que nos bailavam nos lábios logo minha mãe nos silenciava: Calados! Estamos na Quaresma!
Claro que nós sabíamos que em casa sem que os vizinhos nos escutassem poderíamos temperar um pouco a azáfama da revolução caseira. Sim, porque nesta altura lá em casa tudo era mexido. Os móveis e colchões eram desventrados dos seus conteúdos, as camas desmanchadas, as roupas postas ao sol. Na eira preparavam-se novas “camisas de milho” para camas mais fofas, areavam-se louças e ornamentos.
Em grandes alguidares lavavam-se pratos, vidros… louça que só via nessa ocasião… E eu ficava a olhar maravilhada aquele menino de chapéu azul com uma cana de pesca na mão que ornamentava o meu copo preferido ou as chávenas de fina porcelana que deixavam passar a luz; a terrina de grandes flores cor de laranja, a pequena chávena solitária com papoilas e espigas de trigo no desenho… Que lindo que tudo era!...
E depois de limpos os tectos, pintadas as paredes, tratadas as madeiras e encerado o chão, era hora de voltar tudo ao seu lugar. E até o avô João lá do alto do seu retrato esboçava um meio sorriso pela obra feita. Era um consolo saborear o cheiro a lavado e ver a melhor colcha de seda adornando a melhor cama, aquela em que ninguém dormia exceptuando a avó quando vinha passar um mês connosco ou a mãe quanto estava de “resmento”.
A casa pronta, era chegada a vez do jardim e acessos: roçar as ervas, limpar as plantas e árvores de folhas secas, colocar longe da vista qualquer pedaço de madeira que destoasse no local. As flores brancas que sempre nesta altura apareciam em todo o seu esplendor sobressaíam no verde; as laranjeiras ainda guardavam alguns frutos e a grande glicínia florida que trepava pelo poste de electricidade emanava um suave perfume.
Sexta-feira era dia santo e na igreja as cerimónias começavam às três da tarde. O senhor Prior fazia o seu interminável sermão começando invariavelmente com palavras carregadas de simbolismo lembrando a dor Maior da mãe que perde seu filho: Ó vós homens que passais! Olhai e vede se há dor igual à minha dor…
Para além das palavras iniciais que se repetiam ano após ano, desses sermões só recordo a dor de estar horas de pé pensando insistentemente no momento em que depois da procissão do enterro eu voltaria para casa que brilhava de lavada e sonhava com o dia de Páscoa e o vestido novo a estrear, e no folar que os padrinhos me dariam, e nas amêndoas que o padre deixaria cair por entre os nossos dedos (que apesar de pequeninas eram muito gostosas) quando viesse com o crucifixo para nós beijarmos dizendo: Aleluia! Aleluia!!
Ah, mas no sábado ainda havia uma tarefa muito importante a fazer: ir ao pinhal apanhar abórtegas. Não sei qual o nome correcto mas era assim que chamávamos aos rebentos verdes que brotavam por entre os pinheiros no terreno limpo de mato. Enchíamos vários sacos contando histórias assustadoras de lacraus e outros monstros verdadeiros e regressávamos satisfeitos para casa onde nos aguardava a mãe que tinha ido ao olival cortar algum feno. Juntando uns raminhos de alecrim, espalhava tudo em frente à casa e acessos formando um fofo tapete verde de que ainda sinto o cheiro e a textura.
E no domingo depois da missa pascal quando acompanhado pelo sacristão e outros acólitos de capa vermelha o padre surgia espalhando água benta pela casa (Aleluia! Aleluia! ) nós esperávamos alinhados ao lado do pai e da mãe e não ousávamos olhar os pequenos confeitos que nos escorregavam dos dedos e saltitavam no chão encerado. É que tínhamos bem presentes as palavras da nossa mãe: Não se atrevam a apanhar a mais pequenina amêndoa do chão!! Um dia o Sr. Prior vai aprender a tratar-vos como pessoas e não como galinhas.
Demorou alguns anos mas aprendeu…
ALELUIA! ALELUIA!


Clementina Antunes
Domingo de Páscoa, 4 de Abril de 2010