sábado, 23 de janeiro de 2010

PRECE



foto-You found me/Dani




Dai-me, Senhor,
cada dia a palavra,
a semente de fogo necessária
à lavoura. Dai-me ainda
a graça de uma vida devastada
de amor.
Mas livrai-me do medo
de ver a prece atendida.


Flor Campino

ReCANTOS POÉTICOS


Foto: Light Painting/ Pedro Maia


O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sobre os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede,
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge (1939-1989)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

TRIÁLOGO



Foto - Júlio Quintela


- Meninos, vamos tomar o pequeno almoço!
- Eh!... eh!... eh!...
- Ih!... ih!... ih!...
- Mas que risada é essa? Venham daí!
- Eh!... eh!... eh!...
- Ih!... ih!... ih!...
- Também me quero rir. O que se passa?
- Nada!... eh!... eh!... eh!...
- Nada!... ih!... ih!... ih!...
- Não querem dizer?!...
- Diz tu, António...
- Diz tu, Francisco...
- Eu, não! Diz tu!...
- É que... nós estávamos a falar de sexo...
- Ah... de sexo... Pois... tu és do sexo masculino e a mamã é...
- Não é nada disso, papá! É que o Manel, do segundo ano, disse que queria SEXAR com a Maria da minha sala... ih!... ih!... ih!...
- Eh!... eh!... eh!...
- Rápidos para a mesa que já estamos atrasados!!!

Clementina Antunes/10



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

FORMIGAS...


foto "Formiga"-Luís Ferreira



São pretas, pequeninas e silenciosas mas desde que um dia atravessaram o terraço e eu não tive coragem para as exterminar radicalmente, nunca mais me deixaram. Um dia, aparecem pé ante pé atravessando a sala. Noutro, espreitam o lava-louça e querem saber o que tenho para o almoço. Já invadiram o esconderijo preferido do António, a despensa, mas hoje quiseram saber a marca do meu perfume e  vejam só, conhecer o que guardo nas gavetas do armário. Ah! Aí não!...
Sem dó nem piedade, peguei no insecticida. Desta vez é que vou ficar em paz...


Clementina Antunes/10


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O REAL E O IDEAL


Leiria
foto-clemantunes (idealizada com ajuda de Picasa)


O REAL E O IDEAL


Se a distância entre aquilo que de facto existe e acontece e aquilo que achamos que devia ser e acontecer é sempre enorme, há épocas do ano em que o confronto mais intenso com estereótipos muito perfeitos e acabadinhos agudiza a sensação. Como agora.


Porque tudo nos fala de claridade, da harmonia, da amizade e da alegria de estarmos juntos e partilharmos, tendemos a reparar mais nas zonas de escuridão, de conflito, de zanga, de tristeza, de solidão e de abandono que também temos. Tendemos a valorizar o que existe (ou não existe e achamos que devia) que nos afasta dos modelos idealizados. Por qualquer razão, queríamos que a nossa fonte de bem-estar, um bem-estar permanente e duradouro, assentasse de pedra e cal na realidade, em acontecimentos e pessoas exteriores e independentes de nós que, no entanto, cumprissem com exactidão o papel que gostaríamos que desempenhassem.


Por qualquer razão, quase acreditamos que o importante se passa fora, ainda que perto de nós, e que os nossos recursos para lidar com o real são sempre insuficientes.


E, no entanto, trazemos de fabrico uma gama sofisticadíssima de possibilidades. Podemos não só gerir o que acontece à nossa volta, a tal da realidade, como transformá-la em direcção àquilo que nos faz mais sentido ou gostamos mais. Podemos até mudar-nos, aprendendo a olhar sob novas perspectivas e diferentes ângulos.


Claro que já sabemos que, mesmo com diferentes alternativas para fazer com que a realidade seja mais tolerável ou simpática, não conseguimos nunca que aquilo que idealizamos ganhe corpo e se estabeleça. Ainda que consigamos, de vez em quando, experimentar alguma sensação de plenitude, depois ela desfaz-se e desvanece-se.


Parece que é mesmo assim.


Parece que a possibilidade que temos de imaginar o que seria o ideal serve, sobretudo, para nos fazer mover. Para nos pôr a perseguir o sonho, a correr atrás do inalcançável e a ter ganas de manipular a realidade como se fosse o nosso estimado ursinho de peluche.


Os que não percebem isto ficam tristes e sentados a um canto.


O que, em certas alturas, é ainda mais triste.




Isabel Leal
Professora de Psicologia/Psicoterapeuta

sábado, 2 de janeiro de 2010

PALMAS... PARA JORGE





...
É a dança mais pungente
mão atrás e outra à frente
valsa de um homem carente...

...mão atrás e outra à frente...
...valsa de um homem carente...
...


L'APRÈS MIDI





Vale a pena re... re... re... re...VER!

Ou fechar os olhos e simplesmente ouvir a dança do piano...
....................................


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010!!!


foto-LIDL


FELIZ 2010!!!

SEGUNDOS bem humorados
MINUTOS bem acompanhados
HORAS de intenso prazer
DIAS construtivos
MESES de optimismo
ANO FELIZ!

com

MESES de optimismo
DIAS construtivos
HORAS de intenso prazer
MINUTOS bem acompanhados
SEGUNDOS bem humorados...


FELIZ 2010!
COM MUITO AMOR A TRANSBORDAR!!!




VIRAR DE PÁGINA


foto-boletim ASSP


Já nada é como antes!...
Novos tempos
Novas vontades...
Será que o Menino é radical?
Os pais sim, sem dúvida!
Brrrrr....Brrrrr.....
 aí vão eles
a caminho de um
NOVO ANO!


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A CAMINHA ESTREITA


foto-clemantunes

O FEIXE DA CARUMA



O feixe da caruma! Que humildade!
São folhas mortas que o pinheiro enjeita,
Ou que o vento cruel por terra deita,
Que se calcam sem dó nem piedade.


Mas, sendo o sentimento da bondade
Aquele que aos humildes mais se ajeita
São para os pobres a caminha estreita,
São a vida, o calor, a claridade.


O feixe de caruma! Se Maria,
Virgem de Nazaré, Nossa Senhora,
Tivesse tido a estranha fantasia


(Perdão para esta audácia pecadora)
De dar à luz na nossa freguesia,
De caruma cobria a manjedoura…



Acácio de Paiva
Poeta leiriense
(1863-1944)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

HISTÓRIA ANTIGA


foto-clemantunes

HISTÓRIA ANTIGA


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga

domingo, 27 de dezembro de 2009

IMPERFEIÇÕES




foto-clemantunes



O silêncio da manhã é simultaneamente inquieto e reconfortante.
Quando acorda assim, parada olhando as sombras paradas, sabe que o dia vai ser fértil. Seja do que for, do que tiver que ser, do que se permitir viver, do que quiser construir, do que aceitar refazer…

Longínquo, o som de cães se cumprimentando mistura-se com o toc toc abafado dos saltos altos da vizinha do segundo andar.
Veste um agasalho, enfrenta o ar gélido da manhã e partilha a melancolia com as plantas do seu terraço. Fala-lhes de chuvas e de sol, de ventos e nuvens passageiras; afaga-lhes os troncos, retira-lhes os podres, corta-lhes os excessos e acarinha a terra renovada trauteando…

“Afagar a terra … conhecer os desejos da terra… Cio da terra, propícia estação… e fecundar o chão...”

Está tão vazia a sua varanda, tão nuas e tristes as suas floreiras… Precisa alegrá-las com pontos de luz e cor…
Recolhe do chão os restos do abandono e sai em busca de um rasto de sol que ao longe se adivinha.

Quando entra nos viveiros sente-se abraçada pela Terra Mãe e inspira profundamente a força que dela emana. Passeia-se pelas veredas cumprimentando a Dracaena… o Ficus. Afaga o Anthurium e a Spathiphyllum tentando descobrir aquelas que serão a companhia ideal para as plantas do seu terraço. Vê as roseiras, os gerânios… Não, não são estas as eleitas. Procura por entre os crisântemos, afasta os cíclames, olha as azáleas, as magnólias… Não, nenhuma dessas é a indicada.

Entra no mundo da ficção e maravilha-se com a variedade e perfeição das flores artificiais mas nem aí ela encontra o que procura. A funcionária, eficiente e atenciosa logo a elucida:

-Não minha senhora, lamentamos. Amores-Perfeitos já não há.

Decepcionada propõe-se abandonar o local mas num último impulso olha para o lado e ali mesmo, juntinho a si está um vaso partido com uma planta solitária de flores lilases. Toca-lhes ao de leve e logo uma fragrância selvagem de pedras e montes se desprende … e por entre os seus dedos se renova a sede de evasão…

Com um leve sorriso, ela abraça o velho vaso e caminha segura na tarde cinzenta de inverno.



Clementina Antunes/Dez 09

sábado, 26 de dezembro de 2009

SOMBRA


foto-clemantunes

SOMBRA



Sei que estás aí
adivinho-te
sombria
tornando mais escuro
o chão que foi pisado.
Recortas-te negra
no frio empedrado
e segues-me
em cada passo
resoluto
na busca
de outras verdades
em iluminados redutos.


Minha sombra…
parte de mim
meu eu
meu ser

eternamente
perseguindo
a luz
que te faz
nascer…




Clementina Antunes/Dez 09

LIÇÕES DE SOLFEJO


na foto - Snoopy

Oh, o que nós fazemos pela família!...
Só ela me faria sair do meu aconchego e afrontar a noite gelada.
Fui ouvi-los em concerto, à filha e ao genro. Ela no clarinete, ele na percussão; acompanhados de mais quarenta jovens, alguns muito jovens. Bonito de se ver.
De regresso, serpenteando pela estrada que atravessa o pinhal ouvindo Júlio Isidro com a sua Ilha dos Tesouros (e que tesouros!...) vou entoando em surdina Et maintenant, que vais je faire?... e pensando seriamente em aconselhar ao Snoopy (o recém chegado ao círculo musical) umas aulas de solfejo.
E se pudesse obrigava a minha nora a acompanhar as lições.
Só para chatear...


Clementina Antunes/09